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A Feira de Caruaru ‘faz gosto a gente ver’: conheça a história da música que eternizou a feira

Entrada da Feira de Caruaru, no Parque 18 de Maio, faz referência a música composta por Onildo Almeida Reprodução/PMC Poucas obras conseguem resumir tão be...

A Feira de Caruaru ‘faz gosto a gente ver’: conheça a história da música que eternizou a feira
A Feira de Caruaru ‘faz gosto a gente ver’: conheça a história da música que eternizou a feira (Foto: Reprodução)

Entrada da Feira de Caruaru, no Parque 18 de Maio, faz referência a música composta por Onildo Almeida Reprodução/PMC Poucas obras conseguem resumir tão bem a alma de uma cidade quanto “A Feira de Caruaru”. 70 anos depois da primeira gravação, a música composta por Onildo Almeida segue atravessando gerações e transformando em melodia o cotidiano da maior feira ao ar livre do Nordeste. No momento em que Caruaru, no Agreste de Pernambuco, celebra 169 anos nesta segunda-feira (18), o clássico permanece como uma espécie de retrato cantado da cidade. Mais do que uma canção, “A Feira de Caruaru” virou documento histórico, patrimônio afetivo e cartão-postal sonoro do município. Gravada inicialmente pelo próprio Onildo Almeia, em 1956, e eternizada no ano seguinte na voz de Luiz Gonzaga, a música ajudou a projetar nacional e internacionalmente a feira que, como diz a letra, vende “de tudo que há no mundo”. ✅ Receba as notícias do g1 Caruaru e região no seu WhatsApp Vídeos em alta no g1 A cidade que nasceu da feira À esquerda: Uma das primeiras fotos da Feira de Caruaru, registrada em 1895 por Francisco Bocage; à direita: registro atual do Parque 18 de Maio Initial plugin text A relação entre a feira e a própria origem de Caruaru é, para historiadores, impossível de separar uma da outra. Segundo o historiador José Urbano, a cidade surgiu justamente a partir da atividade comercial desenvolvida ao redor da antiga capela de Nossa Senhora da Conceição, construída em 1782. “A feira é a gênese da nossa cidade. A posição geográfica e a vocação comercial são os dois fatores responsáveis pelo desenvolvimento econômico e social de Caruaru”, explicou. A dinâmica local ainda guarda uma curiosidade rara. “Do ponto de vista da sociologia, a cidade nasceu após a feira, quando geralmente é o contrário”, disse José Urbano. Hoje, no entorno do Parque 18 de Maio, funcionam 14 feiras livres, entre elas a Feira de Artesanato, de Importados, de Flores, de Ervas Medicinais, de Couro e de Bolos e Doces. A principal delas, conhecida historicamente como Feira da Sulanca e referência nacional no comércio de confecções, passou a se chamar oficialmente Feira da Moda de Caruaru em setembro de 2025, após sanção de projeto de lei pela prefeitura. O espaço abriga ainda o Mercado de Carne, o Mercado de Farinha, a Casa da Cultura José Condé e a Casa Rosa, antigo matadouro municipal transformado em mercado cultural. O baião que atravessou fronteiras Onildo Almeida no Parque 18 de Maio, em Caruaru Joalline Nascimento/g1 Foi observando esse universo popular, ainda na infância, que Onildo Almeida encontrou inspiração para escrever o baião que mudaria sua trajetória e a história cultural de Caruaru. O compositor relembra que percebeu que a feira tinha mais histórias do que cabiam na primeira versão da música. “Quando eu aqui cheguei, eu disse: ‘esse negócio está pequeno. De Caruaru tem mais o que dizer’. Aí fiz mais duas estrofes e concluí a música”, contou em entrevista à TV Asa Branca. A canção foi apresentada pela primeira vez na antiga Rádio Difusora de Caruaru, onde Onildo trabalhava como operador. Foi pelos corredores da emissora que Luiz Gonzaga ouviu a gravação e pediu para conhecer o autor. A frase dita pelo Rei do Baião virou quase uma lenda da música nordestina: “Como é que você tem um negócio desse e não me amostra?”. Em 1957, Luiz Gonzaga gravou “A Feira de Caruaru”. O disco vendeu 100 mil cópias em apenas dois meses e garantiu ao cantor o primeiro disco de ouro da carreira. Para Onildo, a parceria entre a música e Gonzaga foi decisiva para transformar a feira em referência cultural no país. “Ela passou a ser famosa através da música. Quem não conhecia a feira teve o desejo de conhecer”, afirmou o compositor. “O Luiz Gonzaga foi muito importante na divulgação da feira lá fora”, completou. 'Vende de tudo' Feira da Moda de Caruaru reúne compradores de todo o país Reprodução/PMC A feira mudou de endereço ao longo dos séculos, cresceu e se modernizou, mas sem perder a essência popular descrita nos versos de Onildo. Em 2006, recebeu do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. “Ela mudou um pouco. Mas não deixou de ser feira. Vende de tudo”, resumiu Onildo. “Quando tem uma coisa pra vender e não consegue, vai pra feira que você vende.” A própria música parece funcionar como um passeio pelas bancas do Parque 18 de Maio. Entre “massa de mandioca”, “sorvete de raspa”, “bonecos de Vitalino” e “fruta de parma”, cada verso constrói uma fotografia sonora da cultura popular nordestina. Talvez por isso a canção nunca tenha conseguido tradução perfeita para outros idiomas. “É uma música que não pôde ser traduzida porque são coisas que lá fora não tem”, disse Onildo. “Tem coisas que é só nossa.” 'De tudo que há no mundo só tem na feira de Caruaru' Reprodução/PMC A voz de uma cidade Onildo Almeida e sua esposa Lenita Almeida na residência onde moram. Reprodução / Tv Asa Branca Sete décadas depois da primeira gravação, “A Feira de Caruaru” continua ecoando entre gerações como uma espécie de hino popular da cidade. O áudio original gravado por Onildo Almeida em 1956, em disco de 78 rotações, ganhou neste mês uma restauração e remasterização assinadas por Thiago Rad, levando novamente às plataformas digitais a primeira versão da música. Onildo Almeida, que completa 98 anos em 2026, soma mais de 500 músicas gravadas por artistas como Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Gilberto Gil e Chico Buarque. Patrimônio vivo da cultura pernambucana e doutor honoris causa, ele segue compondo e acompanhando a permanência de sua obra nas novas gerações. Sete décadas depois, a feira continua lotando corredores, espalhando cheiros, sotaques e mercadorias. E a música segue fazendo o mesmo. Em Caruaru, feira e canção parecem ter se tornado uma coisa só. A Feira de Caruaru (Onildo Almeida) A Feira de Caruaru Faz gosto a gente ver De tudo que há no mundo Nela tem pra vender Na feira de Caruaru Tem massa de mandioca Batata assada, tem ovo cru Banana, laranja, manga Batata doce, queijo e caju Cenoura, jabuticaba Guiné, galinha, pato e peru Tem bode, carneiro e porco Se duvidar inté cururu Tem cesto, balaio, corda Tamanco, gréia, tem cuêi-tatu Tem fumo, tem tabaqueiro Feito de chifre de boi zebu Caneco alcoviteiro Peneira boa e mé de uruçu Tem carça de arvorada Que é pra matuto não andar nu Tem rede, tem balieira Mode menino caçar nambu Maxixe, cebola verde Tomate, cuentro, couve e chuchu Armoço feito nas torda Pirão mexido que nem angu Mobilha de tamburete Feita do tronco do mulungu Tem louça, tem ferro velho Sorvete de raspa que faz jaú Gelada, cardo de cana Fruta de parma e mandacaru Bonecos de Vitalino Que são conhecidos inté no Sul De tudo que há no mundo Tem na Feira de Caruaru Feira de Artesanato de Caruaru Joalline Nascimento/g1